A história dos Animes #6 – Como impedir o Animecalipse [e umas coisinhas mais]

Hoje o Japão é um cadáver. Um zumbi, uma máquina de vendas que de alguma forma ainda funciona, mas a luz, a luz de dentro está quebrada. Os mais de 20 anos de medidas governamentais para acabar com a sua crise financeira serviram praticamente para adiar e agravar os resultados finais. A maioria das empresas japonesas deveria ter quebrado há anos atrás. Porém, uma medida comum tomada pelos governos em momentos de crise é emprestar dinheiro loucamente. Então, pelos últimos 26 anos, o banco central japonês tem injetado trilhões de dólares na economia, diminuindo cada vez mais os juros. Isso criou um círculo vicioso, onde a maior parte das empresas depende de empréstimos cada vez mais baratos para não quebrar.

Em 2016, o Japão entrou para o clube dos países que empresta dinheiro a juros negativos, -0,1%. A medida também tem a finalidade de conter a “deflação” monetária.

Como se isso não bastasse, o país ainda enfrenta problemas de natalidade e sua população está envelhecendo rapidamente. Idosos com mais de 65 anos, agora são mais de 21% da população, de acordo com o Ministério de Saúde e Bem-estar Japonês e a baixa natalidade torna ainda mais difícil resolver essa crise que assola o Japão há quase 30 anos.

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OH! NOOOO!!

E tem mais! Uma grande crise mundial pode estar por vir. O FED (tipo um banco central) dos Estados Unidos tem operado da mesma maneira insana. Os bancos centrais europeus também. A economia da China está desacelerando e à beira do estouro de uma bolha de crédito. Resumindo, as coisas podem piorar muito.

“Mas Linki, eu entrei aqui para ler sobre animes. Por que você está falando sobre economia?”

  • Pois bem, meu excelentíssimo leitor: animes são produtos, feitos por empresas para gerar lucro. Acredite, o que falei até agora vai ser importante para a “conclusão” dessa história.

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Como expliquei no artigo anterior, a indústria de animação japonesa tem dificuldades de se renovar. Já que os salários são muito baixos, as vezes menos de $400 por mês, e o trabalho é excessivo ao ponto de animadores adoecerem em suas mesas. Por causa disso, mesmo com vários esforços do governo, as novas gerações de japoneses não têm interesse em trabalhar na área. Essa é uma das razões para a estagnação criativa atual.

Muitos se queixam de falta de originalidade e plots repetitivos nos animes de hoje. Alguns culpam o excesso de ecchis e MOE, fanservices em geral, dizendo que os estúdios escolheram operar pelo caminho mais fácil, ou seja, produzir somente aquilo que os Otakus japoneses querem assistir (e comprar).

…mas quanto custa para produzir um anime?

Os estúdios e produtoras japonesas não costumam divulgar informações sobre custos e número de vendas. Porém, baseado em diversos relatos de pessoas do ramo, como animadores e diretores, uma animação custa entre 100 e 400 mil dólares por episódio. Então, um anime de 1 cour (de 10 à 13 episódios) custaria entre 1 e 5,2 milhões de dólares. Isto é, sem contar com os gastos com a logística, produção e distribuição dos DVDs, Blurays e brindes, além o aluguel de um horário de exibição nas emissoras de TV, que custam cerca de 360 mil dólares para horários noturnos.

Se as emissoras não costumam bancar os animes, como os estúdios ganham dinheiro?

Excluindo os raros casos onde o anime é encomendado por uma emissora ou uma editora, podemos observar que a maioria esmagadora dos animes sobrevive da venda de mídias físicas, DVDs e Blurays, e outros produtos licenciados.

É preciso ter em mente que as animações japonesas são produzidas com foco no mercado interno, então, salvo casos como Naruto e Pokemon, os animes são custeados por espectadores japoneses que assistem as animações de graça na TV e compram as mídias física e outros produtos da obra.

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Esse modelo de negócios baseado no mercado interno é a maior ameaça para o futuro das animações japonesas. Nem sempre as produções conseguem se pagar. Se você acompanhar os rankings de vendas, como o Oricon, verá que um número enorme de animes não passam de 2000 mídias físicas vendidas. Como as empresas lidam com esse prejuízo?

Bem, este é outro assunto complicado, mas resumidamente falando: as empresas vivem de acertos pontuais. Para se manterem competitivos, os estúdios de anime passaram a investir na quantidade e não na qualidade dos animes. Pois eles sabem que a maioria de suas produções mal se pagará, chegando a dar prejuízos. Então, eles produzem o máximo de animes genéricos de baixo custo que puderem, na esperança de que um deles faça sucesso e traga lucro. Enquanto fazem isso, procuram se dedicar às poucas produções de alto orçamento que provavelmente darão um retorno significativo.

Mas o que eles fazem com os prejuízos?

Bom, estúdios e produtoras recebem investimentos e patrocínios de diversas formas, além disso, eles são empresas especializadas nisso. Por isso, é de se esperar que eles estejam preparados e tenham caixa suficiente para cobrir essas falhas até o próximo sucesso estourar.

Não que eles liguem para isso… Como expliquei no início do artigo, a economia japonesa é um zumbi. Empresas que deveriam falir são forçadamente sustentadas pelo crédito artificialmente baixo do governo. Então, se o seu anime deu prejuízo, é só pegar um empréstimo… rolar a dívida… pegar outro empréstimo…

Embora o Japão exporte animes para o exterior, basicamente nenhum estúdio considera as vendas no estrangeiro como fonte primária de renda. Além disso, DVDs e Blurays licenciados para os Estados Unidos e Europa custam menos do que os originais no Japão.

Na Terra do Sol Nascente, um kit contendo de 2 à 4 episódios de um anime custa mais de 50 dólares, podendo chegar à 100. Isso mesmo. A maioria das obras que você assiste são sustentados por algumas milhares de pessoas que pagam centenas de dólares por alguns episódios.

Quem sustenta a indústria?

Os Otakus. Pronto, próxima pergunta…

Por que pagam tão caro?

Para entendermos como as coisas ficaram desse jeito precisamos voltar um pouco no tempo.

As mídias físicas de anime sempre custaram bastante, pois eram produzidas para locadoras de vídeo (coisa do século passado, né?). Como cada cópia de um anime ou filme custava bem caro, algumas milhares de vendas bastavam para custear uma produção. Assim, os estúdios ficavam felizes, as locadoras ficavam felizes e o público ficava feliz por poder alugar vários animes diferentes.

Contudo, ninguém esperava que algumas pessoas se apegariam tanto aos animes a ponto de comprarem, pagando valores exorbitantes, estas mídias direcionadas para locação. Os Otakus cavaram sua própria cova, pois como se sujeitavam a comprar VHSs e Laserdiscs excessivamente caros, não havia razão para as produtoras e distribuidoras abaixarem os preços.

Com o tempo, o mercado foi se adaptando e a venda para o mercado doméstico se tornou a principal fonte de renda da indústria. Agora os kits ficavam mais elaborados. Eles vêm com posteres, brindes, camisetas e tudo o que puderem inventar para justificar os altos preços e manter os fiéis Otakus pagando.

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Box padrão do Kill la kill. Custa cerca de 50 dólares.

Voltando aos problemas:

Um dos principais problemas, como comentei antes, é a taxa de renovação de profissionais de animação. Embora ainda existam alguns jovens animadores que aceitem trabalhar nessas péssimas condições, o seu número cai a cada dia. Além disso, as ideias criativas desses animadores iniciantes são quase sempre ignoradas, já que eles são contratados somente para realizar trabalhos repetitivos, sem direito a experimentar novas ideias e colaborar criativamente com os mais velhos.

Com o aumento da quantidade de animes por temporada é natural que enredos comecem a se repetir. Atualmente são produzidas algumas centenas de animes por ano, por isso, nem todos podem ser originais e recheados de elementos únicos. De fato, a maior parte dos animes produzidos na ultima década são adaptações de outras mídias.

Como expliquei anteriormente, a maior parte dos estúdios se concentram em produzir o máximo de adaptações que for possível. Adaptando muito mangás, light novels e visual novels, enchendo essas produções com MOE e tudo mais que o seu público-alvo desejar. Tudo se resume às vendas, no final – e isso não é necessariamente ruim.

Uma das maiores queixas da atualidade é a falta de originalidade, ou melhor aquela sensação de: “eu já não assisti esse anime antes?!”. Para ilustrar, vou falar de alguns animes notoriamente parecidos.

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Seiken Tsukai no World Break (esquerda); Seirei Tsukai no Blade Dance (direita)

Em julho de 2014, na temporada de verão, estreou Seirei Tsukai no Blade Dance.

O anime conta a história de uma escola que treina Elementaristas, pessoas que conseguem fazer contratos com espíritos e utilizar seu poder. O protagonista, Kamito, é o único elementarista homem da academia…

Este é um exemplo do que gosto de chamar de harém genérico. Muitos elementos e clichês encontrados nesse anime podem ser encontrados em diversos outros, incluindo ecchi.

No ano seguinte, chegou a vez de Seiken Tsukai no World Break.

Hum… Nomes parecidos, mas isso não quer dizer nada. Porém, este é mais um exemplo de Harém genérico. Uma escola que treina jovens com poderes especiais, eles se lembram de suas vidas passadas e conseguem usar habilidades espirituais. O protagonista é um raro savior que se lembra de duas vidas passadas…

Embora as histórias sejam diferentes, é impossível não ter a sensação de que os dois são muito parecidos. O desenvolvimento da história, os personagens e a comédia são todos muito semelhantes, embora os animes sejam produzidos por estúdios diferentes.

Poucos meses depois chegamos ao ponto de dois animes basicamente idênticos serem lançados ao mesmo tempo. Sim, estou falando de Rakudai Kishi no Cavalry e Gakusen Toshi Asterisk.

Um garoto entra numa academia onde eles lutam com armas e tem poderes sobrenaturais. O garoto é diferentão e acaba vendo uma garota de cabelo rosa trocando de roupa. [Reação padrão de Ecchi]. Os dois lutam. O garoto vence. Agora eles são amigos. Ela é uma princesa de outro país que luta usando fogo. Ele luta com uma espada. Com o tempo o garoto fica famoso e forma um harém em volta de si. O colégio participa de competições de batalha, então a princesa e o protagonista se juntam para chegar às finais, cada um por um motivo diferente, e no final pretendem se enfrentar novamente.”

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Acabei de fazer a sinopse dos dois animes, ao mesmo tempo. Basicamente a única diferença entre eles é que Rakudai Kishi é melhor brinca com todos os clichês que utiliza. [Ambos tem muito fanservice e ecchi]

PS: Gosto de ambos

Vale lembrar que estes animes genéricos não se restringem a haréns. Durante os últimos 16 anos, inúmeros gêneros passaram a seguir “receitas de bolo” para produzir animes em massa que agradem ao público.

Falando sério. A indústria do entretenimento vive de tendências. Desde que Sword Art Online estourou, muitos outros animes envolvendo pessoas presas em jogos online ou em mundos de fantasia foram produzidos. Tivemos Log Horizon, Overlord e KONOSUBA, todos envolvendo esse mesmo cenário.

Todos os animes citados acima, incluindo Seiken Tsukai, Seirei Tsukai, Rakudai Kishi e Gakusen Toshi foram adaptados de light novels. Não estou dizendo que Log Horizon, KONOSUBA, SAO e Overlord sejam iguais, afinal, todos exploram cenários parecidos de maneiras completamente diferentes. Só quero ressaltar que o problema da falta de originalidade não é exclusivo dos animes. Nem mesmo do Japão.

Olhe a sua volta! Diversos mangás são parecidos, light novels, jogos, filmes. A cada dia que passa fica mais difícil criar algo que nunca foi feito antes. A cada dia, existem mais obras, mais competição. Tanto os estúdios, quanto os autores dos materiais originais precisam vender. Então é natural que muitos deles sigam caminhos de sucesso. Podemos realmente culpá-los por adequarem seus produtos ao que seu público quer consumir? É claro que não. Existe um mercado para isso! Ainda assim, existem novas ideias, mesmo que diluídas em um mar de repetições.

Essa falta de originalidade é necessariamente ruim?

Uma das regras mais evidentes da economia é que se um produto ou serviço agradar aos seus clientes, ele venderá, caso contrário, dará prejuízo. Com isso em mente, a grande quantidade de fanservice produzida atualmente serve como um indicativo de que os produtores estão acertando.

Se as empresas de animação continuam seguindo esses padrões, significa que existem pessoas dispostas a pagar centenas de dinheiros para assistir suas produções. Não só assistir, encher suas estantes com produtos licenciados também. Os estúdios / produtoras, como quaisquer empresas sérias, estão sempre preocupados com o que o seu público-alvo quer consumir.

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Porém, muitas pessoas, principalmente do ocidente, consideram isso como um câncer. A enfermidade que está matando lentamente a animação japonesa. Será que isso é tão ruim assim?

Deixar de produzir um anime genérico não vai fazer um estúdio produzir a próxima obra-prima. Uma coisa não exclui a outra, principalmente, porque os estúdios precisam ganhar dinheiro para investir em produções maiores. Por exemplo, o A1-Pictures, vive adaptando mangás, light novels e jogos. Ele foi o responsável pela adaptação de Gakusen Toshi, porém este estúdio também produziu Aldnoah Zero, um anime original que agradou boa parte do público.

Ainda utilizando a A1-Pictures como exemplo. Apenas 12 dos 61 animes produzidos por ela são histórias originais, sem contar que parte deles foi coproduzida com outros estúdios. É evidente que a atual indústria de animação japonesa, focada no mercado interno, só consegue sobreviver dessa maneira. Com muitas adaptações de outras mídias e um pouco de fanservice pra incrementar as vendas.

Por outro lado, temos o “ex-túdio” MANGLOBE. Aquele que produziu a adaptação de GANGSTA em 2015. Esse mesmo estúdio também animou Ergo Proxy e Samurai Flamenco, mas ficou conhecido por animar várias temporadas e OVAs de Kami Nomi zo Shiru Sekai. Nos seus últimos anos, a MANGLOBE, investiu em animações mais adultas, que agradaram bastante o público ocidental, mas as vendas em território japonês foram um completo fracasso. Conclusão: o estúdio abriu falência em setembro de 2015.

Logo, precisamos analisar as duas frentes do problema, dentro e fora do Japão.

A maioria das reclamações dos fans não-japoneses, envolvendo o excesso de fanservice e falta de originalidade pode ser explicada facilmente. Os estúdios japoneses produzem animes para o seu mercado interno. Mesmo que hajam vendas e licenciamento em outros países, no final do dia, o que é levado em consideração é o ranking de vendas japonês.

O Japão é um país muito fechado. Suas empresas de entretenimento são muito conservadoras e só recentemente começaram a se abrir para o mundo. Salvo algumas exceções, como Shingeki no Kyoujin e Sword Art Online, as vendas no estrangeiro não são significativas o suficiente para gerar mudanças em seu modelo de negócios. Entretanto, isso está começando a mudar lentamente. [retornarei nesse ponto depois]

Dentro do Japão, a maior parte das críticas vem de membros da indústria.

Hideaki Anno, diretor de Neon Genesis Evangelion, disse que “A indústria de animação japonesa atingiu um beco sem saída”, em 2014. Na época, a internet surtou. Começaram as discussões sobre o “Apocalipse dos Animes” que, em boa parte, foram causadas pelo sensacionalismo. Pois a maioria só citava um pedaço da declaração de Hideaki, como fiz agora à pouco.

Na verdade, ele disse: “A indústria de animação japonesa atingiu um beco sem saída – e será difícil de escapar, a menos que possamos fazer animações sem considerações comerciais… talvez seja tarde demais.”

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Hideaki Anno

Hayao Miyazaki, fundador do estúdio Ghibli, comentou em uma entrevista que o maior problema da indústria da animação é que ela está cheia de Otakus. Miyazaki se referia a produtores e animadores que “não passam algum tempo observando outras pessoas reais”.

Então, o Animecalipse, tão falando em 2014, na verdade se referia ao fim da animação como arte. De certa forma, Miyazaki e Hideaki têm razão. Porém, mesmo produzindo animes em quantidade industrial, a animação japonesa ainda surpreende com histórias originais. Mesmo adaptações de mangás podem se tornar produções fantásticas.

Ambos sabem muito bem dos gastos e das dificuldades para produzir uma animação. Os dois acompanharam e ajudaram a construir a história dos animes. A mesma história que nos mostra que foram necessários muitos erros e repetições para finalmente inovar. Olhe para a quantidade de animes de robôs, praticamente iguais, que nos levaram até Gundam! Pense nas produções ridiculamente coloridas por computador, no início da animação digital, que guiaram Chihiro até o Oscar.

Conhecendo o passado, vemos que a animação evolui, que o público muda, que haverão muitos erros e alguns acertos. A arte não vai morrer, ela só está diferente. A repetição de enredos não significa que a indústria está estagnada, ela só demonstra que não dá pra produzir um Evangelion todo dia.

O verdadeiro Animecalipse não será criativo, artístico. A verdadeira ameaça aos animes é econômica.

O ANIMECALIPSE

Mesmo com o crescimento da exportação de animes na década de 90, a indústria de animação japonesa concentra seus esforços em seu mercado interno. Alguns milhares de otakus comprando centenas de milhares de DVDs, action figures e quaisquer outros produtos relacionados, são a base de sua estratégia comercial.

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O consumismo é forte no Japão e é altamente encorajado pelo governo. Idols (Ídolos) e “produtos da moda” estão incrivelmente entranhados no estilo de vida do japonês moderno. Por que o governo japonês incentiva tanto o consumismo? A resposta é simples: o Japão é um lugar estranho.

A inflação brasileira não é nada comparada à japonesa. Hoje o país deve 240% do seu PIB, que não é pequeno. Porém, os preços estão caindo. “O quê? Mas o Jornal Nacional falou que inflação é o aumento de preços…”

A inflação em si é o aumento na quantidade de “dinheiros”. Quando o governo imprime loucamente papel moeda, o valor de cada dinheiro individual caí. Com o tempo, os preços são reajustados para cima, pois um dinheiro agora vale menos; então um produto que antes custava 5 dinheiros será reajustado para, por exemplo, 7 dinheiros.

Ou seja, a inflação causa o aumento de preços. Menos no Japão, onde, devido a muito fatores, os preços no Japão costumam cair. Uma das causas para esse estranho fenômeno é a inovação tecnológica. Quando novas tecnologias surgem, os preços tendem a cair – e como todos sabem, o Japão é incrivelmente avançado tecnologicamente: eles têm vasos sanitários que tocam música!

A queda de preços, igualmente ao aumento, é danoso para o consumo. Pois, por que você compraria algo agora, se daqui a um mês vai estar mais barato? Como isso esfria a economia, o governo japonês executa, há anos, várias medidas para elevar os preços.

Além disso, os japoneses têm o costume de guardar dinheiro. Afinal, desde o início da década perdida o país tem estado assim:

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A economia cresce, depois retrocede; cresce, retrocede.

Além desse efeito sanfona, o principal risco para a indústria de animação japonesa é a conclusão de suas desventuras econômicas. Como falei no início do artigo, a economia japonesa é um zumbi. Que se alimenta de cérebros crédito barato para continuar existindo. MUITAS empresas, dentre elas, muitos estúdios e distribuidoras, já deveriam ter falido há muito tempo. Mas o crédito governamental, causador dessa inflação toda, as mantém ativas.

Hoje, o Japão empresta com juros NEGATIVOS. As coisas vão continuar bem, pelo menos enquanto o governo conseguir baixar ainda mais as taxas de juros. Porém, eles já quebraram uma barreira “intransponível”.

Agora, o governo paga para emprestar dinheiro aos outros. Infelizmente, chegará o dia em que essa pirâmide vai ruir e toda essa estrutura mantida artificialmente vai desmoronar.

Esse será um impacto fatal para muitas empresas e indústrias no país. A cada dia que passa, o estrago fica maior e as consequências mais severas. Isso, aliado ao envelhecimento da população e a consequente diminuição da força de trabalho, pode destruir a animação japonesa do jeito que conhecemos.

SOLUÇÕES? ALGUÉM…?

E qual seria a jogada mais inteligente para diminuir os impactos do colapso financeiro japonês?

O mercado externo.

Felizmente, a industria de entretenimento japonesa começou a perceber isso. Nos últimos anos, se tornou mais fácil licenciar animes e produtos, além de mangás e light novels. Porém o sistema de licenciamento atual é ineficiente e injusto. Além disso, as empresas do ramo devem aprender que o modelo de negócios aplicado no Japão não funcionará da mesma forma em todo o mundo. Diversificação é a chave.

LICENCIAMENTO

Contratos de licenciamento geralmente não são divulgados ao público. São negociações fechadas entre empresas. Onde seus termos e valores costumam permanecer secretos. Por isso, basicamente ninguém sabe o que é preciso para licenciar um anime ou série.

Porém, alguns documentos “vazaram” em 2012, então é possível ter uma ideia de como funciona esse tipo de acordo.

Quando uma empresa como a FUNIMATION (a maior distribuidora de animes dos Estados Unidos) faz uma proposta de licenciamento, os termos do acordo podem ser mais ou menos assim:

“Queremos todos os direitos sobre a obra, incluindo, mas não limitado à Vídeo sob demanda (internet, ou TV a cabo, remunerado ou não), direitos de transmissão (TV, satélites etc), venda de mídias físicas (DVD, Bluray e quaisquer outras futuras mídias) e merchandising (brinquedos, vestuário etc), nos Estados Unidos da América e no Canadá. A validade da licença será de 5 anos com um tempo de liquidação de 6 meses (tempo que a distribuidora terá além do limite da licença para liquidar seus estoques de produtos).

Pagaremos 800 mil dólares de garantia por 12 episódios (o mínimo que o detentor dos direitos da animação receberá, mesmo se o anime não vender) mais 20% do lucro bruto ajustado (basicamente uma porcentagem do lucro líquido).

Os valores de garantia podem variar muito, de alguns milhares de dólares até milhões. A parcela do lucro bruto ajustado também varia bastante, entre 10% e 30%, dependendo do contrato.

Um contrato entre um serviço de streaming, como a crunchyroll, e TMS, por exemplo, seria bem mais simples. Envolvendo basicamente os direitos de transmissão pela internet, a duração da licença, a área de validade (os países em que ele poderia transmitir), o método de remuneração e talvez, alguns direitos de merchandising. Contudo, sabemos pouquíssimo sobre os contratos da Crunchyroll, principalmente sobre valores.

O PROBLEMA COM O MÉTODO DE LICENCIAMENTO ATUAL

A FUNIMATION geralmente inclui o continente inteiro em seus contratos, embora não exiba ou venda animações fora da América do Norte. Com isso, muitos animes não podem ser licenciados por outras plataformas, como o Crunchyroll ou até mesmo o Netflix, para o resto das Américas. O que agrava a pirataria nesses países.

Para piorar, boa parte dos animes é licenciada para a FUNIMATION, pois é muito mais lucrativo licenciar para TV, streaming, mídias físicas e mechandising do que para uma simples plataforma de streaming.

Felizmente, a influência do Netflix está crescendo, então algumas produções acabam licenciadas por ele. Um bom exemplo disso é o anime “Nanatsu no Taizai”, licenciado pelo netflix enquanto a FUNIMATION ficou chorando num canto qualquer. O anime em questão foi dublado em português e tem todos os episódios disponíveis no Brasil. [Embora a falta de transmissão simultânea faça do Netflix uma opção secundária para assistir animes…]

Outra boa notícia é que com a criação do Anime Daisuki, pelo Consórcio de Animes do Japão, muitos animes que sofreriam com essa limitação de licenciamento são exibidos pelo mesmo. Um bom exemplo é o anime Heavy Object que está disponível em português no Daisuki.net, mesmo sendo licenciado para a FUNIMATION.

STREAMING

Embora não seja tão lucrativo para os estúdios, o streaming é a melhor forma de distribuição para os animes. Seu baixo custo e facilidade de acesso atraem usuários que antes recorreriam à pirataria para companhar suas séries favoritas.

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Hime-chan, mascote da Crunchyroll

O Japão, ao contrário do que muitos esperariam, é muito conservador e lento para adotar novas tecnologias. Animes são vendidos em DVDs até hoje, pois a adoção de Blurays está sendo muito lenta. O streaming sofre do mesmo mal, pois a maioria das empresas japonesas o viam com maus olhos há pouco tempo atrás. Na verdade, a maioria delas simplesmente encarava o streaming da maneira errada.

Para elas, a transmissão via internet era equivalente à venda de mídias físicas, porém muito menos lucrativa. Ou seja, desinteressante; um dinheirinho extra que vem depois de pagar a produção com as vendas no mercado doméstico.

Contudo, se as empresas encararem o streaming como uma alternativa para a exibição na TV, o modelo se torna muito interessante. Durante muito tempo, foi difícil para empresas, que pagam centenas de milhares de dólares para exibir suas produções na TV japonesa, entenderem que poderiam receber alguns milhares de dólares para exibir as mesmas animações no mundo todo.

O streaming é um fracasso como produto final, mas um sucesso como divulgação. Os fansubs provaram isso, anos atrás. Aliás, diversos estudos comprovam que a pirataria não causa um prejuízo real à muitas indústrias.

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Graças ao deus Yato, as produtoras de animes começaram a enxergar a transmissão pela internet dessa maneira. Pois com o sucesso do Crunchyroll, que possui mais de 700 mil usuários pagantes e sabe-se lá quantos usuários gratuitos (que geram lucro com publicidade), algumas empresas do ramo se unirão para criar o Daisuki.net.

Este site, administrado pelo Anime Consorcium Japan, exibe gratuitamente animes em vários idiomas, incluindo o português, além de ter uma loja online.

A Crunchyroll, que também possui uma loja, embora não esteja disponível no Brasil, transmite várias animações em “simulcast”, ou seja, pouquíssimo tempo após sua exibição original no Japão.

A Netflix, embora não seja um serviço exclusivo para animes, tem um grande poder de negociação e traz animes dublados em português. Embora seu catálogo seja pequeno e sem transmissão simultânea.

NÃO VAI SER TÃO FÁCIL ASSIM…

Parece que as empresas japonesas aprenderam que é perda de tempo lutar contra a distribuição digital. Ela é rápida, barata e abre as portas para o mercado mundial. Entretanto, ainda há muito chão a percorrer. Pois associado à distribuição digital como forma de divulgação, estas empresas precisam disponibilizar outros produtos nesses novos mercados, em diversos países.

Vendas de DVDs e Blurays, da maneira que são feitas no Japão, podem funcionar em outros países. De fato, em países desenvolvidos como EUA, Canadá e o Reino Unido a população possui condições financeiras e o costume de comprar mídias físicas de suas séries e filmes favoritos. Além de possuírem facilidades para importar produtos oficiais.

Entretanto, a população de países como o Brasil, além de não ter o costume e condição financeira para tal, passa por muitas dificuldades para importar produtos de seus animes favoritos. Então, será necessário desenvolver novas estratégias para obter lucro com estes fãs.

Sem contar que algumas empresas não licenciam seus animes para o Brasil (outros países também). Mas isso vem mudando. Toho e Media Factory que não costumavam licenciar para nosso país voltaram atrás, com isso, atualmente a única empresa que mantém tal política é a TBS.

FINANCIAMENTO COLETIVO:

Mudanças também podem ser feitas nos estágios iniciais da produção de um anime, não só na comercialização. De uns anos para cá, diversos projetos e ideias novas que nunca veriam a luz do dia, puderam ser realizados através do financiamento coletivo.

Sites como Indiegogo e Kickstarter possibilitaram que milhares de projetos fossem colocados em prática, com doações, votos de confiança de pessoas que gostariam que determinados produtos ou serviços existissem. Produtos como o C.H.I.P, um computador de 9 dólares que arrecadou 700 mil dólares em 5 dias.

O modelo de crownfunding funciona da seguinte maneira:

Determinada pessoa ou empresa tem uma ideia, que precisa de uma certa quantidade de dinheiro para ser executada. Então eles cadastram essa ideia em um site de financiamento coletivo e estipulam uma meta de arrecadação. As pessoas que contribuírem, dependendo do valor doado, ganharão brindes estipulados pelo criador da campanha ou até mesmo o produto final.

A mesma estratégia poderia ser aplicada na produção de um anime… Na verdade, já foi.

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O estúdio DIOMEDEA, durante a produção de seu novo anime MAYOIGA, criou uma campanha no site de financiamento coletivo Makuake.com. Seu objetivo eram 3.330.000 ienes ( 29.500 mil dólares), que seriam utilizados para ajudar na produção. Se você leu até aqui, sabe que este valor é muito baixo quando se trata de produzir um anime. Mas esse valor foi estabelecido para ajudar em ações promocionais.

No presente momento, o primeiro episódio de Mayoiga foi ao ar e a campanha já arrecadou mais de 44.925 dólares, mesmo faltando 21 dias para o fim da arrecadação.

De fato, este anime não teve sua produção custeada por crownfunding, mas esta ação demonstra que este método poderá ser utilizado no futuro para custear boa parte da produção de um anime. Principalmente se os estúdios pedirem contribuições do mundo todo e não somente do Japão.

No caso do Mayoiga, os 44.925 dólares foram doados por 134 pessoas, totalizando uma média de 335 dólares por pessoa. O que se aproxima do valor de 6 kits de DVDs/ Blurays de um anime, cerca de 18 episódios, considerando os preços abusivos do Japão…

Além de uma forma de levantar dinheiro e uma ferramenta de marketing, o financiamento coletivo poderia dar voz aos fãs do mundo inteiro. Porque séries que não fariam sucesso no Japão, mas agradariam o público ocidental, poderiam ser financiadas por nós. O que resolveria parte dos problemas dos quais comentei anteriormente.

FALANDO SOBRE EXPANDIR O MERCADO…

Muitos produtores querem trazer seus animes para uma audiência mais global, mas eles não têm certeza de como fazer isso. A Crunchyroll tem um incrível acesso a dados e estatísticas sobre o gosto geral da audiência global.” – Kun Gao, CEO da Crunchyroll.

Em outubro de 2015, a Crunchyroll e a Sumitomo Corporation anunciaram uma joint venture (empreendimento conjunto) para investir em animes originais produzidos com foco na audiência ocidental. Esses animes serão transmitidos para o mundo todo através da plataforma da Crunchyroll.

A Sumitomo é uma corporação presente em 67 países e no Japão é dona de diversas empresas de TV a cabo e cinema. Segundo o gerente geral da divisão de mídia da Sumitomo, Iehisa Nakamura:

Com esta parceria, as vozes dos fãs de anime do mundo inteiro poderão chegar aos estúdios produtores de animes diretamente pela plataforma da Crunchyroll, eu acredito que ela vai produzir animes fascinantes para a audiência mundial. Nós gostaríamos de contribuir com o desenvolvimento da indústria dos animes através da criação de novos animes para fãs do mundo todo.”

Este movimento conjunto da Sumitomo e da Crunchyroll é extremamente benéfico para o futuro da animação japonesa, Quando os frutos desses investimentos começarem a vir, provavelmente, outras empresas e plataformas investirão da mesma forma. É de se esperar que o NETFLIX, que já anuncia os animes como “produções originais do NETFLIX”, apresente algum projeto parecido nos próximos meses ou anos. Uma coisa é certa: estamos no caminho certo.

UM POUCO DE HISTÓRIA RECENTE:

Como este é um artigo da “História dos Animes”, devo comentar alguns dos acontecimentos dos últimos 6 anos.

  • O número de animes adaptados de Light Novels continuou a crescer. Além disso, Light Novels começaram a ser publicadas em grande quantidade nos Estados Unidos. Somente em 2015, mais de 24 títulos foram traduzidos para o inglês. No Brasil, Light Novels também começaram a ser publicadas.

  • Hayao Miyazaki se aposentou em 2013. Com isso, o Studio Ghibli pausou momentaneamente sua produção de filmes, em 2014, para se reorganizar.

  • Hiroyuki Imaishi (diretor de Gurren Lagann) e Hiroyuki Imaishi, ex-funcionários da GAINAX, montaram seu próprio estúdio de animação. Seu estúdio, o Trigger, foi responsável pelo anime original Kill la Kill, um dos melhores de 2013.

  • Popularização de animes de curta duração, de 3 à 10 minutos, como: Ojisan to Marshmallow e Danna ga Nani wo Itteiru ka Wakaranai ken.

  • Mais mangás antigos são adaptados para anime, como: Ushio to Tora, JoJo no Kimyo na Boken e Kiseijuu.

  • Franquias como Sword Art Online e Shingeki no Kyojin fazem extremo sucesso no ocidente, gerando muitos e muitos milhões de dólares de lucro. Estes colaboraram com o aumento de interesse dos produtores em abraçar o mercado externo.

  • Animações feitas inteiramente com computação gráfica (3D) começaram a ser melhor aceitas pelo público, como Sidonia no Kishi e Ajin, do estúdio POLYGON.

  • […] One Piece continua. Naruto também, mesmo que o mangá tenha acabado… vai entender…

CONCLUSÃO?

Existem muitos problemas na atual indústria de animação: péssimas condições de trabalho, produções muito repetitivas e principalmente o fato dela ser fortemente baseada no mercado interno japonês. Quando o Japão não puder mais “socorrer” suas empresas com crédito barato, diversas empresas falirão. O mercado interno vai esfriar e provavelmente os estúdios não conseguirão vender alguns DVDs por presos abusivos, além de não poderem receber o crédito ao qual se acostumaram.

Contudo, ao passo das mudanças que estão ocorrendo no mercado de animações japonesas é possível que alguns estúdios, que possuírem fontes de renda externas ao Japão, sobrevivam e prosperem em meio à crise.

Mesmo se uma crise mundial estourar nos próximos anos, provavelmente irá, diversificar e atuar em diversos países ainda será a melhor estratégia para impedir o colapso dos animes.

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Não precisamos ser pessimistas com tudo. Pois são as dificuldades que fazem as coisas evoluírem. Então, em vez de pensar na completa aniquilação dos animes, pense nas coisas boas que virão depois dessa crise passar.


Foi uma jornada difícil, chegar até aqui. Escrever nunca foi um dos meus pontos fortes, história também não. Porém, fico feliz de ter aprendido tanto ao longo desses 6 artigos e espero que vocês tenham aproveitado também. Semanas de pesquisa, meses tentando escrever…

Finalmente terminei. Mal consigo acreditar!

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ESPERE!

Você acha que a História dos Animes terminou? Tolinho… Se tudo der certo, esses primeiros 100 anos terão sido só o começo.

Sobre Linki-sensei

Um montante considerável de matéria das estrelas, composto principalmente de carbono, hidrogênio e muita simpatia [não]. Desconsiderando surtos obsessivos por coisas aleatórias, passo boa parte do meu tempo consumindo mangás e animes em grande quantidade. Sou administrador do sites da Rede Tsuzuku e dou aulas de física nas horas vagas, além de pregar que 2D >> 3D.
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  • Patthy Cullen

    Amei o último artigo, mt bem escrito, claro, limpo e c um final fofinho.^_^ Foram meses de trabalho em q vc teve mt cuidado e carinho no preparo dos artigos e na escolha de fontes confiáveis. Está de parabéns e estou orgulhosa de vc!
    Ainda bem q n desistiu de terminar nos momentos de baixa criatividade e desânimo, ficou perfeito!!! <3

  • Sei que durante a produção de A Viagem de Chihiro, o Miyazaki levou os animadores para um abrigo de animais(ou algo do tipo) para ver como era a mandíbula de um animal, como se movimentava, e assim poder fazer o dragão corretamente, já que eles não faziam ideia de como era. Dizem que o Miyazaki frequentemente fazia isso com seus animadores.

    Não sabia disso sobre MAYOIGA.

    Eu realmente espero boas coisas do anime original da Netflix, “Perfect Bones”.

    Enfim, ótimo texto, adorei.

    • Lucas Linki

      Sim, sim, o Miyazaki é disso. Se não me engano mostra ele levando os animadores para ver cachorros no making of.
      Enfim, obrigado por ler.