A História dos Animes #3 – Anos 80, no cinema ou em casa, o que importava era ver anime

– Já ouviu o doce som de uma torrente de dinheiro entrando na sua conta bancária? Pois é, eu também não. Mas isso aconteceu com os estúdios de animação japoneses, no início dos anos 80.

Ah! Os anos 80… Havia chegado a época de colher os frutos do milagre econômico. De se aproveitar das bases construídas pelos animes da década anterior. Havia, também, chegado a hora de uma ofensiva em larga escala para dominar o mundo: com animes.

Como a economia estava a todo vapor, a oferta de crédito beirava a insanidade. Era possível conseguir empréstimos fácilmente, com uma taxa de juros baixíssima. Com isso, os estúdios de animação puderam se expandir, investir mais em cada produção. Isso faria da década de 80 um período fundamental para diversificação e popularização dos animes no exterior.

270px-The_Super_Dimension_Fortress_MacrossNa década passada ( artigo aqui), o gênero Mecha ( robôs) havia se popularizado, além disso, séries como Gundam e Battleship Yamato trouxeram um ar de realidade e maturidade para as animações. A ficção científica continuou fazendo sucesso no Japão. Então, em 1820, foi lançada outra “ópera espacial” chamada Chōjikū Yōsai Makurosu (Super Dimension Fortress Macross).

Macross, altamente influenciada por Mobile Suit Gundam ( Yamato também), era uma aventura espacial recheada de Mechas ( robôs), batalhas apocalípticas, romance em meio a guerra e…… música excessiva. Macross foi criado pelo Studio Nue, o mesmo que produziu Yamato na década anterior.

Devido ao estrondoso sucesso que o anime fez no Japão e no exterior, destacando os Estados Unidos da América, foram encomendados mais 36 episódios, que se passavam 2 anos após a história original. Contudo, devido a outros projetos que já estavam em andamento, partes da animação foram realizadas por estúdios satélites, dentre eles o iniciante GAINAX.

OBS: O estúdio GAINAX será importante no decorrer da história, não nesse artigo, mas no futuro. Além disso esse estúdio produziu O MELHOR ANIME DE TODOS OS TEMPOS! Se você pensou em Evangelion, pensou errado.

CHUTE DE TRIVELA!!!

tsubasa_01Em 1983, Kyaputen Tsubasa ( Super Campões) chegou à televisão japonesa, adaptado de um mangá da Shonen Jump. Esta série ajudou a popularizar animes de esporte, um nicho que é muito presente até hoje. A série contava a história de Tsubasa Ozora, um jovem jogador de futebol que sonha em vencer a Copa do Mundo. O anime, produzir por Tsuchida Productions, fez muito sucesso no Japão e quando foi exportado fez um sucesso absurdo na América Latina e no Oriente Médio. A série contava com técnicas exageradas, chutes impossíveis e vários elementos de animes shounen, muitas dessas características continuam até hoje em animes esportivos.

O legado de Tsubasa é tão grande que em 2006, Tsubasa ficou em 16º lugar no TOP 100 animes, realizado pela emissora japonesa TV Asahi, através de uma pesquisa online.

CURIOSIDADE: “Oliver Tsubasa”, como é conhecido na dublagem brasileira, chegou a jogar no Brasil. Ele jogou no São Paulo, vencendo o Campeonato Brasileiro em uma partida emocionante contra o Flamengo.

SUCESSO DE VENDAS É UMA OVA…

Ainda em 1984, foi lançado o primeiro Original Video Animation (OVA). OVA era uma nova forma de distribuição, na qual as animações saem diretamente para o mercado de vídeo: fitas VHS, DVD, Bluray… O primeiro OVA foi Dallos, uma obra de ficção científica do Estúdio Pierrot, que não fez sucesso na época.

ESTAVA TUDO TRANQUILO, TUDO FAVORÁVEL!

O bom momento econômico fez com que os estúdios de animação japoneses começassem a investir em coisas novas. Muitos começaram a produzir filmes, outros, animações experimentais com temáticas diferentes.

Miyazaki e Takahata

Miyazaki e Takahata

Em Tokyo, existiam dois amigos. Hayao Miyazaki e Isao Takahata haviam trabalhado juntos em vários estudios de animação, incluindo a Toei. Em 1979, Miyazaki foi contratado pela revista Animage, mas suas propostas de filmes foram recusadas. Em 1982, Miyazaki publicou o mangá Kaze no Tani no Naushika. Como o mangá foi bem recebido pelo público sua história foi adaptada para um filme, dirigido pelo próprio Miyazaki

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O filme, Nausicaä of the Valley of the Wind, foi um grande sucesso de público e de crítica. Com a fama e dinheiro adquiridos com “Valley of the Wind”, Miyazaki e Takahata fundaram em 1985, o Studio Ghibli, que definitivamente é um dos estúdios mais conhecidos e respeitados do mundo.

Ainda em 1984, o mangá Saint Seiya ( Os Cavaleiros do Zodíaco) começou a ser publicado. Antes mesmo de ganhar uma versão em anime, Saint Seiya contribuiu com a popularização do gênero Yaoi. A partir de sua publicação, muitos Doujins surgiram explorando O RELACIONAMENTO entre seus personagens.

Pessoalmente, acredito que a FATÍDICA CENA na casa de libra, que ficou muito mais “íntima” no anime, foi uma homenagem a todas as fãs da franquia.

A REVOLUÇÃO DO MERCADO DOMÉSTICO

Embora Dallos tenha sido um fracasso de vendas, as OVAs que vieram posteriormente começaram a fazer sucesso. Este novo mercado, que não possuía as limitações de público da TV, possibilitou uma maior liberdade para os estúdio. Com isso, produções que antes nunca seriam cogitadas para a TV foram animadas neste formato. Vários nichos surgiram, produções mais adultas e realmente experimentais surgiam aos montes ( cheias de violencia e sexo).

9224Nesta mesma época, o termo Otaku, passou a ser utilizado para designar ( pejorativamente) pessoas viciadas em animes, embora o termo já existisse na língua japonesa. A partír daí, OVAs passaram a funcionar como um teste para saber se determinado anime seria bem recebido em um anime para a televisão.

O mercado de Hentai audiovisual se aproveitou, e muito, do surgimento das OVAs. Um dos primeiros sucessos foi Lolita Anime, cuja trama não vou descrever, pois não quero ser preso. O estrondoso sucesso de animações sexuais foi tão grande que a maioria dos Hentais é distribuida na forma de OVA até hoje.

1986 – É exibido na televisão japonesa o anime Dragon Ball

MIYAZAKI ATACA NOVAMENTE

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Em agosto de 1986, Tenkū no Shiro Rapyuta (Laputa: O Castelo no Céu), o primeiro filme do recém-formado Studio Ghibli, estreou nos cinemas japoneses. Foi dirigido pelo próprio Miyazaki e produzido por Isao Takahata ( o amigão). O filme fez muito sucesso no Japão, porém devido à problemas com a dublagem americana não foi bem recebido nos EUA. “O Castelo no Céu” recebeu no total mais de 10 premiações, incluindo, no ano de sua estréia, os prêmios Ōfuji Noburō Award e Mainichi Film Award.

NÃO CONSEGUI PENSAR NUM TÍTULO, MAS A PARTIR DAQUI AS COISAS COMEÇAM A DAR ERRADO…

Desde o fim da Segunda Guerra, o Japão estava crescendo como se não houvesse amanhã. A prosperidade economica passava uma falsa sensação de estabilidade e segurança, porém isso não duraria para sempre. Hoje, a década de 90, no Japão, é conhecida como a DÉCADA PERDIDA. A partir dela a economia japonesa começou a se corroer, em sua primeira crise econômica pós-ocupação. Em 1988, já era possível perceber que anormalidades na economia nipônica haviam criado uma bolha especulativa, que explodiria em breve, levando metade do país junto dela. Mais tarde viria a tomar medidas para TENTAR conter os danos.akira_movie_poster

Nesse meio tempo, em meio a muitas produções caríssimas de animes para o cinema, surgiu AKIRA.
Akira foi uma grande aposta. Uma produção gigantesca que torrou mais de 1,1 bilhões de ienes ( aproximadamente 17,6 milhões de dolares em 2016). O filme é aclamado pela crítica até hoje. Está entre os 25 melhores filmes de animação de todos os tempos e serviu de inspiração para filmes como Matrix. Mais do que um filme sobre um garoto com poderes psíquicos que anda em sua “motoca” pelas ruas de uma Tokyo distópica, este filme foi uma revolução técnica.

Celuloide utilizado na produção do filme.

Celuloide utilizado na produção do filme.

A maioria das animações, até então, eram muito paradas. Era comum ver cenas de diálogos onde somente as bocas dos personagens se mexiam. Akira fez diferente, sua animação era muito fluida. O que era de se esperar, já que foram usadas mais de 160 mil folhas de celulóide e mais de 2200 cenas para pouco mais de 120 minutos de filme. Também foram utilizadas técnicas de computação gráfica para simular movimentação de objetos e a paralaxe dos planos de fundo. Tecnicamente falando foi uma produção fenomenal, porém excepcionalmente cara.

Contando com uma ótima história, baseada num mangá de sucesso, uma excelente direção e uma animação de ponta, Akira tinha tudo para ser um absoluto sucesso de bilheteria. [ Dica: Ele foi]

Mesmo com a iminente crise economica, Akira vendeu bem. Arrecadou cerca de 6,3 bilhões de ienes somente no Japão e mais 500 mil dolares nos Estados Unidos. Porém, com a economia japonesa começando a trepidar, os estúdios de animação passaram a assumir posições mais defensivas. O que acabou com esta era de megaproduções cinematográficas. A partir daí, muitos estúdios passaram a se arriscar menos e a produzir “somente coisas que vendem”.

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Hoje, Akira é reconhecido como o símbolo da segunda grande expansão dos animes, no ínicio dos anos 90, para o resto do mundo.

UM FINAL TRISTE, MAS CHEIO DE BONEQUINHOS

Tentando conter a bolha especulativa, o banco central japonês começou a forçar mais empréstimos baratos. [ Sério Japão? Seu problema era excesso de crédito fácil desregulando sua economia e você resolver aumentar o número de empréstimos interbancários?]

Essas medidas fizeram com que as bolhas especulativa e imobiliária estourassem. Muitas empresas faliram, incluindo, obviamente, estúdios de animação. O crescimento japonês praticamente cessou, o padrão de vida de sua população caiu drasticamente, o milagre havia chegado ao fim. Hoje a década de 1990 é conhecida como A DÉCADA PERDIDA. A economia do Japão demorou muito para começar a se recuperar, na verdade ainda não se recuperou. Já que sua dívida pública é de mais de 230% do seu PiB. Atualmente, o período negro na economia do Japão foi estendido para “AS DUAS DÉCADAS PERDIDAS”.

Essa perda não foi só para eles, foi uma grande perda para os fãs de animes. Já que muito estúdios fecharam e muitos animes que mal podemos imaginar não chegaram a ver a luz do dia. Os filmes de animação começaram a ficar mais raros no Japão, e na transição de uma década para outra, basicamente só o Studio Ghibli sobreviveu.

E no final dessa década próspera, chegava na televisão japonesa, pela TV Asahi, o anime de Saint Seiya ( Os Cavaleiros do Zodíaco), que foi considerado um dos maiores fenômenos da década. Ao ser exportado para o resto do mundo “Les Chevaliers du Zodiaque” fez muito sucesso na França, em países falantes de espanhol e principalmente no Brasil. Ele chegou por aqui em 1994, exibido na TV Manchete e foi a porta de entrada definitiva para toda essa cultura japonesa que conhecemos hoje. A franquia é famosa por seu Merchandise, afinal só a venda de guias ilustrados, posteres e principalmente bonequinhos movimentaram toneladas de dinheiro pelo mundo.

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Sobre Linki-sensei

Um montante considerável de matéria das estrelas, composto principalmente de carbono, hidrogênio e muita simpatia [não]. Desconsiderando surtos obsessivos por coisas aleatórias, passo boa parte do meu tempo consumindo mangás e animes em grande quantidade. Sou administrador do sites da Rede Tsuzuku e dou aulas de física nas horas vagas, além de pregar que 2D >> 3D.
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