Em uma entrevista ao AnimeAnime.jp, Animadora Miyo Sato falou sobre sua técnica única utilizada na obra do ONE.

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Na adaptação de Mob Psycho 100, criado por ONE, o Diretor Yuzuru Tachikawa buscou adaptar o material fonte de uma forma fantástica.  E ainda, combinado com os talentos de uma staff maravilhosa, nasceu um anime com uma incrível mistura de técnicas.

Claro, esses talentos se expandiram na sequências de abertura e encerramentos do anime Mob psycho 100, um produto complexo de animação paint-on-glass, vem de Miyo Sato, uma animadora pós-graduada na Universidade de Artes de Tóquio e que teve seu trabalho nomeado para vários concursos de animação internacionais.

 

Para começar: qual é a história por trás do seu envolvimento com o encerramento do anime?

SATO: Um dos meus colegas me disse que o Diretor estava querendo incluir animação a óleo, então eu mandei para ele uma série de e-mails. Depois, nós conversamos sobre isso e ele me pediu para começar com algumas cenas do projeto original.

 

Você fez as cenas com base no episódio um, correto?

Exato. A princípio, eu trabalhei com cenas envolvendo espíritos ou terror. (risos).

 

Eu notei que seu trabalho no anime é em cores, entretanto, o encerramento é monocromático?

Sim. Eu comecei a trabalhar nas cenas que me foram designadas e uma vez que eles haviam terminado com os storyboards, layouts, e os timesheets (tempos dos quadros), eu os usava como referência.

 

Você já estava familiarizado com as ferramentas do trabalho? Você sabia como ler um timesheet, por exemplo?

Nem tanto. Eu nunca havia usado um timesheet antes, mas o Diretor insistiu que seria algo muito útil de se aprender. Então, trabalhando com o fundo, a partir dos quadros-chaves que eu tinha, eu comecei usando o timesheet para meus intermediários. Eu animei uns dois ou três (Um segundo de animação equivale a 24 quadros – a animação tende a se tornar mais suave quando mais desses quadros disponíveis forem usados). Algumas vezes, havia requisitos específicos nos timesheets, mas em outras, eu tinha que fazer por conta própria.

Miyo Sato mesa

Então você trabalhou com os fundos dos quadros-chaves. Qual é o processo por trás da criação de uma animação paint-on-glass (animação em vidro)?

Bem, eu tenho minha própria estação de trabalho no estúdio agora, mas está ajustada de maneira muito específica. Eu a montei de modo que ela não receba diretamente luz natural. No centro, eu coloquei uma mesa de desenho e, logo acima dela, uma câmera que eu uso para tirar fotos de cada quadro que eu termino. Debaixo dos painéis de vidro, eu tenho uma caixa de luz LED para rastreamento. Há um computador com Dragonframe (Dragonframe é um programa de software muito usado para a animação stop-motion) disponível ao lado, que eu uso para exibir e fazer referência dos quadros que eu terminei. Quanto à pintura em si, eu misturo algumas aquarelas com glicerina, pinto diretamente sobre o vidro, tiro uma foto da pintura concluída, e então passo para a próxima pintura.

 

Então, o que você faz quando você precisa corrigir ou editar algo em um quadro anterior? E se o Supervisor de Animação te pedir para refazer alguns frames?

Oh, se precisamos corrigir alguma coisa, nós usamos o Photoshop para os quadros já finalizados. Basicamente, uma vez que eu termino uma pintura, eu preciso tirar uma foto, passá-la para o programa, e tê-la revisada. Se estiver tudo certo, eu sigo em frente.

 

Como é que eles decidiram que você deveria trabalhar no encerramento?

Por alguns instantes, parecia que nós havíamos nos esquecido do encerramento, então eu fiquei feliz quando eles finalmente trouxeram o tema à tona (risos). Logo depois, eu comecei a ouvir a música de encerramento em uma das reuniões. Meu primeiro pensamento era de criar algo intenso e legal, algo onde teríamos um perfil de cada personagem. Mas eles me disseram que a abertura já havia cuidado disso (risos). O diretor foi quem sugeriu que usaríamos o encerramento para mostrar a manhã do Reigen. Não havia muita menção sobre sua vida privada na obra original, então o Diretor achou que valeria a pena explorar esse aspecto.

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Do Conceito Ao Produto Final

 

Entendo. Então é assim que você define uma direção a se seguir. Como você faz para realizá-la?

Começamos fazendo uma lista de coisas que pensávamos que o Reigen faria depois de acordar. Tiramos muitas fotografias para utilizar como materiais de referência, tanto dentro como fora. Uma parte de nós foi para Chofu ver se há algo que poderíamos usar.

 

Por que Chofu?

Porque a obra original se passa na cidade de ‘Chomi’ (Condimento). Eu admito, entretanto, que não foi uma viagem muito produtiva (risos). Nós apenas tiramos algumas fotos em volta do rio e à esquerda dele. Depois, eu fui imaginando e organizando os materiais de referência, e por fim, os transportando para um storyboard. O diretor ficava de olho no projeto e o departamento de edição entrava e limpava algumas das fotos. Nessa fase, nós pegamos uma série de cenas e as rodamos em um vídeo mock-up (Um modelo em escala ou de tamanho real de um projeto, usado para demonstração, avaliação de design e outros propósitos) do encerramento usando a música e as fotos que havíamos tirado. Então, depois de tudo isso, eu finalmente comecei a pintar.

 

Mas você acabou não usando um storyboard, certo?

Eu usei quando apareceram os segmentos muito complicados, mas foi mais rápido para o departamento de edição compilar os cortes depois. Então, eu fiz praticamente tudo sem o storyboard.

 

Quanto tempo, no total, vocês demoraram para completar o encerramento?

Cerca de um mês.

 

Houveram algumas partes que você achou particularmente difíceis?

Eu acho que o maior problema foi as proporções dos personagens. A sequência é em grande parte feita por rotoscópia (rotoscópia é um método de animação que permite aos animadores redesenhar quadros de filmagens para ser usado na animação), então eu tive que fazer um monte de ajustes para os personagens e os fundos que eu havia pintado.

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Você poderia dar mais detalhes sobre a rotoscópia?

Dragonframe é capaz de reproduzir vídeos, então eu reproduzo o vídeo no PC e verifico as pinturas no vídeo. Eu sempre quis experimentar rotoscópia em uma sequência de pintura em vidro, por isso estou feliz que eu tenha tido a oportunidade.

 

Eu sei que Yoshimichi Kameda, o Designer de Personagens e Supervisor de Animação Chefe, postou algumas folhas de design para as mãos dos personagens. Era uma área problemática para você?

Eu senti que ele não gostou do que eu fiz com as mãos, mas eu não tive a chance de perguntar a ele diretamente. Espero que ele esteja contente com elas.

 

“A Animação Paint-on-Glass Realmente Funcionou!”

 

Então, como você vai decidindo sobre atividades matinais do Reigen?

Parte dela eu comecei imaginando sobre o que um homem pode fazer de manhã. Reigen gosta de deixar um ar de mistério, mas eu não acho que suas manhãs são muito incomuns. Então eu pensei em atividades bastante corriqueiras, como regar uma planta ou fumar um cigarro.

 

Eu realmente gostei de como você o fez beber de um copo que ele usou depois para regar sua planta. Você sente claramente que é algo que ele faria.

Eu me sinto como um homem solteiro que muito provavelmente não possui um regador próprio para isso. É uma ideia que me surgiu enquanto estávamos fotografando a cena.

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O Fumante de Cigarros é um lado de Reigen que Mob não consegue ver. A maneira como ele acende o cigarro é muito astuta.

Até ele se encontrar com Mob, toda a sequência é em monocromática. A fim de manter a sequência de ficar muito monótona, eu queria fazer o ato de fumar um pouco mais sexy. Eu mesmo saí perguntando para as mulheres da equipe aqui na BONES qual elas achavam que seria a maneira mais sensual de se acender um cigarro (risos). Então, eu estou muito feliz de ouvir que os fãs do Reigen gostaram disso.

 

Quando ele se encontra com Mob no final, o mundo se enche de cor. Isso foi ideia de quem?

Propus que fizéssemos a coisa inteira monocromática, mas foi ideia do Diretor de usar a cor no final. Eu não o perguntei ainda por que ele quis fazer isso.

 

Como foi ver a transmissão do seu trabalho na TV?

Como eu estava à espera do primeiro episódio ir ao ar, eu estava incrivelmente ansioso (risos). Tipo, eu continuei me preocupando se o meu trabalho estava esteticamente em harmonia com resto do show. Então eu vi a variedade de estilos de animação, e minha animação paint-on-glass realmente funcionou! Eu estava tão feliz.

 

Como você se sente sobre o anime em si?

A animação é inacreditável! Venho estudando animação há um longo tempo, e assistindo Mob Psycho me sinto arrependida de não ter seguido carreira em Anime. Então, eu estou tentando recuperar isso.

 

Estou feliz que você está gostando! (risos). A propósito, você teve dificuldade em animar personagens que outras pessoas tinham projetado?

Estou feliz que eu tenho a oportunidade de colocar minhas habilidades em a prática. Eu queria saber o quão longe eu poderia ir. Eu não queria permanecer estagnada em meu próprio estilo de trabalho – com os desenhos de outras pessoas é uma maneira para eu atingir um novo patamar.

 

Você acha que suas experiências irão ajudá-la com o seu trabalho independente?

Absolutamente. Sem dúvida. Eu acho que, especialmente em termos de terror, que é o que eu fiz em Mob Psycho, é um dos meus melhores trabalhos.

 

Sua Carreira Como Uma Animadora Paint-on-Glass

 

Eu gostaria de um momento para falar sobre sua carreira. O que inspirou você a usar paint-on-glass como uma forma de animação?

Quando eu estava frequentando a Universidade de Nagoya, um dos meus amigos me mostrou um vídeo, algum estúdio japonês havia produzido um vídeo promocional que usava uma técnica semelhante ao paint-on-glass. Até aquele momento, eu só tinha animado no papel, o que me deixou confusa. Eu o assisti de novo e de novo, até que eu percebi que ele quase parecia ter sido pintado sobre vidro. Na mesma época, um dos meus amigos músicos queria ajuda em um vídeo promocional, por isso, entrei de cabeça e usei meu quarto como uma espécie de sala-escura improvisada, tirando fotos dos quadros durante a noite.

 

Então, basicamente, você está dizendo que você tentou reproduzir uma técnica que não conhecia ao menos o nome?

Mais ou menos (risos). Eu comprei alguns painéis de acrílico, comprei uma mesa que estou usando até hoje e coloquei uma filmadora que eu tinha jogada pela casa.

 

O que você usou para a pintura?

No início, eu usei óleos mistos. Mas o óleo seca após cerca de três dias, o tornando difícil de se trabalhar. Foi nessa época que eu corri para a Caroline Leaf; ela pintava sobre o vidro usando aquarelas misturadas com glicerina. E quando eu tentei, eu descobri que a combinação não secaria! Então eu troquei. Como um bônus adicional, eu não tenho que lidar com o cheiro de óleo mais.

 

Como você se sentiu quando terminou seu primeiro projeto?

Eu não estava usando um storyboard no momento, e eu tinha me divertido muito brincando com as tintas. Pintura, quando usado em animação, tem disso, o que torna uma qualidade fascinante dela. E a maioria das pessoas que viram o projeto acabado foram surpreendidas – eles haviam nunca visto algo assim antes.

 

Eu acredito que você deu um breve hiato na pintura em vidro antes de voltar a ela?

Exato. Dois anos após me formar na faculdade, comecei trabalhando na graduação da Universidade de Tóquio of Arts (Geidai). Nós precisávamos produzir algo para o nosso primeiro ano, foi quando eu percebi: por que não me aprofundar nessa técnica? E então vieram projetos muito parecidos com o meu “Fox Fears”. Acho que funcionam muito bem quando o assunto é pintura em vidro.

 

Você colocou “Fox Fears” para concorrer na categoria “Curtas de Animação” na Tokyo Anime Award Festival 2016 (TAAF2016), mas o seu trabalho foi nomeado para competições no exterior, correto?

Sim. Na verdade, eu combinei areia com tinta para “Fox Fears”. Você pode usar os dedos para “desenhar” com a areia e, em seguida, misturá-lo com a tinta, uma vez que têm texturas semelhantes. Eu mencionei antes, mas o minha artista favorita, Caroline Leaf, animou “The Metamorphosis of Mr. Samsa” dela com areia. Eu usei isso como referência enquanto trabalhava no “Fox Fears”. Sobre o tema: aqui no Japão, há muito poucos animadores que usam tinta ou areia, mas esse tipo de animação é relativamente abundante no exterior. Por exemplo, os projetos independentes que saem do Canadian National Film Board são fenomenais. Eu adorava assisti-los durante minha pós-graduação.

 

Então você diria que você usa pintura em vidro como uma forma de animação porque ela se encaixa com seu estilo criativo e objetivos?

Exatamente o oposto, na verdade. Eu não tenho nenhuma ideia de como o meu produto final vai ficar. Quando você anima com um papel e lápis, você usa somente as linhas que você desenhou. Com tintas, o que você coloca na tela antes, mesmo que você tente apagá-lo, pode influenciar o que você vai desenhar depois. Mas eu amo isso. Essa qualidade na textura é importante. É como se eu estivesse brincando com areia.

About The Author

Icaro Martins

Aspirante a escritor. Gosto de tudo relacionado a cultura oriental. Sempre buscando me manter atualizado sobre as novidades. Adoro curiosidades e referências. Tenho o sonho de me tornar roteirista e diretor de cinema e não irei desistir tão cedo disso, afinal, com "Amizade, Esforço e Vitória" tudo é possível.

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  • http://myanimelist.net/profile/AmandaTostes Amanda Tostes

    Muito legal! Ficou muito bonito o ending. Dá pra notar alguns efeitos parecidos no meio do anime mesmo.